Desmarginação e frantumaglia
uma reflexão sobre o lugar da vítima e o papel do opressor.
Elena Ferrante, autora que leremos ano que vem no Clube, é conhecida por sua apropriação de antigas palavras que ela atribui novos significados e uma delas é a Frantumaglia, palavra do dialeto napolitano que em sua origem se refere a cacos, fragmentos, destroços. Tenho pensado muito sobre como ir contra a violência do opressor é correr o risco do despedaçamento, de nos tornarmos cacos, indefinidas, sem formas, sem contornos ou margens, desmarginadas, mas o caco e ausência de margens é também a possibilidade de reconstrução.
Há muito tempo venho tentando escrever sobre a questão da vítima na relação opressor/oprimido, tanto no plano particular quanto no coletivo. Muitas das leituras que fiz nos últimos anos, leituras que fogem da curva do esperado, que ousam romper com o senso comum, falam da importância de abarcar esse tema em toda a sua complexidade. No entanto, apenas hoje consegui sentar diante do computador e realmente escrever sobre isso.
Nesse pequeno recesso de final de ano, assisti ao filme coreano Brave Citizen, traduzido para o português como Cidadão Corajoso, disponível no catálogo da Amazon Prime. Devo admitir que o filme me moveu de forma tão intensa que eu parecia estar numa partida de futebol, torcendo fervorosamente pelo meu time.
O filme conta a história de So Si-min (Shin Hye-sun), professora contratada em uma escola e que sonha em se tornar efetiva. Essa escola vive sob a tirania de um aluno, Han Su-gang (Lee Jun-young), rico e bem relacionado, razão pela qual as regras não se aplicam a ele. Han abusa física e psicologicamente de alunos e professores, enquanto a instituição finge não ver o que ocorre para, assim, garantir bonificações e ostentar o título mais mentiroso que a família Bolsonaro inteira de “Instituição modelo sem violência escolar”.
O filme ganha corpo à medida que Si-min, advertida a ignorar a violência que atravessa os corredores da escola, decide, como ex-lutadora de boxe, se mascarar e ir à luta, punindo os agressores e incentivando as vítimas a terem esperança e a construírem resistência.
Por que esse filme foi o gatilho para eu escrever? Porque ele evidencia a importância da reação das vítimas à opressão e a relevância individual e política da resistência.
Em 2023, li o livro Herança e Testamento, da escritora norueguesa Vigdis Hjorth, no qual a personagem principal vive anos de abuso sexual cometido pelo pai e decide romper com o silêncio e com a espiral de violência a que foi submetida. Algumas passagens desse livro me marcaram profundamente, como esta que transcrevo abaixo:
O sofrimento não nos torna bondosos. Normalmente, o sofrimento nos torna malvados. A briga sobre quem sofreu mais é infantil. Em regra, os oprimidos acabam sendo mutilados e têm a vida emocional arruinada; em regra, os oprimidos adotam a mentalidade e os métodos do opressor. Essa é a consequência mais infame da opressão: ela destrói os oprimidos e os torna menos aptos a se libertar. É preciso grande esforço para transformar o sofrimento em algo que seja útil para alguém, sobretudo para o próprio sofredor.
Essas poucas linhas de um parágrafo em Herança e Testamento me deram uma verdadeira aula sobre consciência feminista, de classe e tantas outras nuances.
Quando falamos da relação entre oprimidos e opressores, geralmente sentimos compaixão pelas vítimas e raiva dos opressores. Mas, como vivemos em um sistema no qual os opressores dominam, são premiados e protegidos pelas instituições estabelecidas, além de serem responsáveis pelos meios formais de socialização, quando somos oprimidos, muitas vezes nos identificamos com o opressor e seus métodos. Queremos sair do lugar da vítima ocupando exatamente o espaço que o opressor desenhou para nós. Como diz a famosa frase de Paulo Freire, em seu livro Pedagogia do oprimido, Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.
Apenas um pequeno meme pra distrair do tema pesado
Neige Sinno, autora de Triste Tigre, livro em que relata autobiograficamente o abuso sexual sofrido sob a tirania do padrasto durante toda a infância e o início da adolescência, conta que ficou chocada ao ver notícias sobre o desmantelamento de uma rede de pedofilia chamada Damaged for Life (“arruinados para sempre”). Segundo ela, o que atraía esses predadores para essa rede era, entre outras coisas, o desejo de saber como os atos praticados contra inocentes haviam arruinado suas vidas, a marca deixada pela violência, a cicatriz da opressão.
Enquanto mulheres feministas, aprendemos diariamente sobre as nuances e camadas pelas quais a opressão masculinista e misógina nos vitima. Esse conhecimento doloroso é um caminho para a chamada consciência feminista. Entretanto, sozinho, esse conhecimento não basta para transformar nossa condição de vítimas em nível pessoal e coletivo. Ele informa, que estamos nesse lugar, o lugar de danificadas, atingidas por uma violência tão arraigada e cotidiana que vive dentro e fora de nós, nos lugares mais profundos do nosso inconsciente e nos mais públicos como o congresso nacional.
Essa consciência aciona o gatilho do arsenal da raiva que Audre Lorde afirma ser fundamental para a luta. Mas, afinal, lutamos para quê? Para sermos reconhecidas como vítimas por nós mesmas e pelo opressor? Para obter reconhecimento dessa condição e, assim, conquistar algum espaço no mundo deles e em suas instituições? Em Herança e Testamento Hjorth também alerta: Toda vítima é um algoz em potencial. E ela está certa, é só olhar para o caso Israel-Palestina, ou a nível mais micro a como as mulheres que sofrem violência doméstica tem a tendência a serem violentas com seus filhos.
Em seu romance recém-lançado Boca do Mundo, Dia Nobre narra, entre outras histórias, a de Hermínia, vítima de feminicídio cometido pelo marido, que se transforma em um fantasma vingador nas paragens sertanejas: a Santa das Espancadas, que matava maridos abusivos.
Poderíamos facilmente comparar a vingança do fantasma de Hermínia, ao tirar a vida de maridos abusivos, com a luta de So Si-min, que nocauteia valentões. Mas elas ocupam polos opostos da equação, embora o resultado aparente seja a aniquilação da ameaça opressora. Hermínia está aprisionada em sua própria dor; seu corpo fantasmagórico se transforma por essa dor, degenera, como Dia faz questão de explicar. Matar aqueles homens é, psicologicamente, render-se ao método que o opressor lhe impôs: danificada na vida e na morte.
Um carrossel funciona com um mecanismo simples: enquanto gira em movimento circular uniforme, o eixo faz com que os cavalinhos presos à estrutura se elevem, resultando em uma força centrípeta que desloca os corpos para o centro da trajetória. Quem está sobre o cavalinho tem a sensação de ir para frente e para cima ao mesmo tempo, mas está apenas girando em torno de um eixo comum.
Assim vivia Hermínia, presa ao eixo de sua própria narrativa, desesperada por não saber como descer do brinquedo. Quase trinta anos haviam se passado desde o dia fatídico, e a Santa das Espancadas já capturara muitos homens, fazendo seus espíritos desaparecerem no vazio. Era algo nunca visto: uma energia que não se transformava, apenas se extinguia. Envolta em uma névoa de ódio, Hermínia tornara-se uma espiral de escuridão e esquecimento. No lugar dos olhos, carregava dois ocos. Ganhou um aspecto acinzentado, feito pedra, e os cabelos pesavam como mil serpentes.
Hermínia está presa a um ciclo de dor e violência: não consegue se libertar e repete, contra os opressores de outras mulheres, a violência que a vitimou. Assim, torna-se a salvadora, lugar que, como bem sabemos, é também um lugar de desumanização, pois a salvadora é uma ideia, um fantasma, e não uma mulher. E a vítima que ela “salva” não rompe com o ciclo da opressão, não busca consciência e força no coletivo para sair desse lugar; apenas busca ajuda externa para ser resgatada. O mecanismo do carrossel patriarcal continua girando.
Por isso, Hermínia ocupa um polo oposto ao da professora Shin Si-min. Apesar de ser uma “heroína”, Shin Si-min convoca um movimento de rompimento com o ciclo de violência: inspira colegas e alunos a compreenderem que a violência pode ter fim, de forma coletiva. Ela se mostra humana, vulnerável, apenas uma cidadã mascarada que enfrenta valentões. E com isso não faço apologia a “fazer justiça com as próprias mãos” no sentido de reproduzir violências, mas afirmo convictamente, enquanto feminista, que precisamos criar mecanismos coletivos de defesa, proteção e possibilidade, para que não permaneçamos presas ao opressor, às suas soluções e às instituições que nos revitimizam.
Em O perfume das flores à noite, a escritora marroquino-francesa Leïla Slimani diz:
Minha liberdade me extasiava e, ao mesmo tempo, eu tinha medo. Dizia a mim mesma que seria castigada por não ficar no meu lugar. Que, se me acontecesse alguma coisa, seria porque eu tinha procurado.
Nossa liberdade realmente nos assusta, porque libertar-se não significa apenas adquirir consciência, mas caminhar com ela para além dos limites traçados para nós em uma sociedade que nos vitima. Em sua oficina no II Webinário do Clube Teoria Feminista Ontem e Hoje, intitulada Cartografia do invisível: rituais de fronteira, Lilian Tavares Prado afirmou que precisamos caminhar além das margens: um milímetro que nos afastamos delas já é muito e já significa que o oprimido se recusa a permanecer no lugar de vítima sendo reduzida a ser um objeto danificado para sempre por seu opressor.
Graças às mulheres em coletivo, Hermínia tem um fim que caminha para fora das margens e do ciclo de violência em que estava presa e quem ler o livro saberá. So Si-min, por sua vez, consegue vencer os valentões junto ao corpo escolar ativo de alunos e professores que decidem romper, inspirados por ela, os ciclos de violência e dor nos quais estavam enredados. Assim, a comunidade caminha para a transformação.
Nesses enredos e em minha própria experiência enquanto mulher feminista, professora e estudiosa da teoria feminista posso afirmar: não existe liberdade que não esteja vinculada ao rompimento com o lugar da vítima. A consciência desse “lugar” precisa vir acompanhada do combustível da raiva e do amor como motores do movimento que nos tira dele e nos conduz ao espaço da criação, à estrada da especulação de novas possibilidades de existência, à cura coletiva, à imaginação e ao sonho.
Existe uma técnica japonesa chamada Kintsugi (ou kintsukuroi), que significa literalmente “emenda de ouro” ou “reparo com ouro”. É uma técnica que reconstrói objetos partidos, fragmentos, em peças reparadas com ouro. Na filosofia que acompanha esse movimento, nossas cicatrizes não deixarão de existir, nossos cacos não são jogados no lixo, mas eles vão carregar o valor precioso atribuído ao ouro que as recobre. O valor da autodefinição, de ganharmos formatos para fora daqueles definidos por quem nos destrói.
Que em 2026 possamos caminhar mais alguns passos para além das margens, repararmos com ouro nossas cicatrizes. Que possamos romper com as molduras onde diziam que estávamos presas para sempre. Que nossos sonhos sejam, como dizia Fanon, sonhos musculares: de correr, saltar, voar como o vento, fluir como águas, ondas de amor e raiva. Que o músculo da imaginação nunca atrofie dentro das solitárias em que nos colocaram e que possamos usar toda a nossa capacidade criativa para abrir caminhos, para que nós e outras possamos caminhar por eles, recolhendo nossos caquinhos e com eles mostrando umas as outras que não somos mais danificadas para a vida e sim reconstruídas para uma nova existência.
Até 2026!! Feliz ano novo, galera!
AVISOS:
Quem quiser se inscrever no Clube Teoria Feminista Ontem e Hoje, as inscrições estão abertas até o dia 10/01/2026. Esse ano não teremos inscrições avulsas, a não ser via plataforma do apoia.se. No formulário de inscrição tem os detalhes de participação e a lista dos livros.
Turma 1:
Turma 2:








"Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas." Lygia Fagundes Telles
Caramba Su! Fui ler o seu texto só agora, e tão necessário. Quando eu descobri essa arte japonesa eu fiquei apaixonada. Fico indignada como eles podem ser tão desgracadores no “Oriente” e ao mesmo tempo produzir essas coisas cheias de significado! Amei demais sua elaboração! ❤️